quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Discursos sobre a África e os negros em livros didáticos do ensino básico

Discursos sobre a África e os negros em livros didáticos do ensino básico
Aracy Martins - professora da FaE/UFMG e pesquisadora do Ceale
local - Auditório Neidson Rodrigues - Fae UFMG
Dia 29 de setembro de 2009

3 comentários:

  1. A palestra veio trazer informações sobre as diversas apresentações que se dão do negro em livros didáticos, principalmente, nos países africanos que falam a língua portuguesa. A palestra refere-se a apresentação de um projeto que pretende verificar como o negro aparece em livros didáticos no próprio continente africano, de forma a perceber a construção desses sujeitos a partir dos materiais utilizados em sala de aula, para que se possa, a partir desse estudo compreender melhor, os pontos que precisam ser melhorados na aplicação da lei 10639 de 2003, em seus aspectos didáticos que são de grande importância.
    Fica clara a importância que o livro didático pode representar nessa construção, por vários aspectos citados pela palestrante Aracy Alves. Principalmente em países de baixo desenvolvimento, o livro pode: se apresentar como único contato com a cultura escrita, sendo responsável, muitas vezes, pela geração, não somente, de um imaginário, mas como do próprio desenvolvimento social do aluno que tem acesso ao material nas salas de aula; um recurso estratégico de formação de mentalidades a um determinado objetivo seja ele pedagógico, político, econômico o que corrobora diretamente ao desenvolvimento de um sujeito autônomo, sensível, crítico e que não busque ou construa estereótipos que possam influenciar em ações preconceituosas de todos os tipos.

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  2. A palestrante Aracy Martins, por meio de pesquisas recentes, problematiza os discursos e representações sobre a África e os negros nos manuais escolares em países lusófonos, analisou livros didáticos do Brasil, de Portugal, e dos países africanos de língua portuguesa: Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique. Com o apoio de uma equipe multidisciplinar internacional buscou múltiplos olhares no desenvolvimento da pesquisa. Ressaltou a importância de não considerar a África como um único país, mas um continente com várias nações. Países que conseguiram sua independência tardia e está reescrevendo sua história, o que dificultou o acesso a alguns livros didáticos para maior aprofundamento de algumas questões, faz-se pertinente recorrer as Pesquisas históricas e antropológicas para resgatar a história de cada país.

    Geralmente a áfrica é estudada segundo uma perspectiva europeísta, que historicamente a cultura branca, urbana e do gênero masculino ocupou um espaço privilegiado. Ao pôr em relevo o livro didático a palestrante afirma que para muitas pessoas este, é a única via de contato com a cultura escrita, o que aumenta o poder de influência desse material, perpetuando as relações de poder naturalizadas nas formas como esses artefatos demarcam as fronteiras entre as culturas dos diferentes grupos. Pautada em renomados autores como: Magda Soares, Van Dijk entre outros, analisa o discurso nos livros didáticos como prática social em que o racismo se aprende desde a infância com os pais, pares, escola, mídia, interação em sociedades multiétnicas...

    A partir da análise de livros didáticos, pode-se perceber que, estes acabam, de modo geral, representando a(s) cultura(s) dominante em detrimento das outras em vez de colocarem-nas num patamar equivalente de modo a levar à compreensão de suas particularidades que não são sinônimos de inferioridade. A identidade étnica e racial está estreitamente ligada às relações de poder que opõem o homem branco europeu às populações dos países por ele colonizados, recheado de narrativas nacionais, étnicas e raciais, que conserva as marcas da herança colonial. Assim, a palestrante constatou que muitos livros didáticos contribuem para difundir o racismo pautado nas relações de poder, nesses materiais os negros não se constituem como sujeito da história, da literatura ou de outros meios, são apresentados como ‘eles’, são os ignorados, os excluídos do fazer histórico. Já os brancos são apresentados como ‘nós’; são os civilizados, os avançados, os representantes da nação. A questão torna-se então: como desconstruir o texto discursivo do racismo?

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